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Estou no meio de um grupo de Sadhus*, um acontecimento único, uma experiência incrível… por puro acaso! 🙂

Saio as 7hs da manhã sem grandes planos para o dia.
Paro para fotografar uma mulher com uma vestimenta diferente quando alguém diz: ela vai para o Spiritual Walk (caminhada espiritual). Spiritual Walk???  Não sei o que é mas não hesito em mudar de direção. Chego ao local indicado a hora de início da tal caminhada. Há músicos e dançarinas. Fico a um canto vendo o movimento de pessoas pintadas, camelos decorados. Vejo um grupo de Sadhus. Grande. Todos reunidos. Avanço em direção ao grupo sem hesitar. Estão num círculo voltado para o centro e algo se passa no meio da roda. Muitos tentam alcançar o centro, para ver e para fotografar. O tumulto é um pouco agressivo e por isto fico a fotografar um Sahdu no exterior da roda. De repente, o tumulto começa e se mexer. Do centro da roda saem dois Sahdus nus e o corpo pintado. Não os consigo fotografar. O fluxo de pessoas começa e se mover. Não tendo como voltar e no fundo feliz por não ter outra opção, decido juntar-me a eles.
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A caminhada inicia. No cortejo, há grupos de dançarinas indianas, grupos de músicos, grupos de alunos, carroças com camelos decorados e outros. Vou para o meio do grupo de Sadhus. Caminho no meio deles e espero até que alguém convide-me a sair mas… as expressões são amigáveis. Alguém põe uma coroa de flores amarelas no meu pescoço (como as que eles têm) e eu sinto-me bem-vinda no grupo. Fico feliz por ninguém pedir-me uma credencial daquelas que é preciso enviar o DNA (e outros) com dois meses de antecedência.
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Fotografo e as expressões continuam amáveis. A medida que avançamos, mais e mais pessoas estão nos passeios para ver passar a comitiva. Todas muito bonitas e coloridas, com a roupa de ir ver Deus aos domingos. Estão felizes, fotografam muito com os telefones. Por onde passamos, algumas pessoas jogam sacos enormes de flores amarelas e vermelhas nas nossas cabeças. Toneladas de flores cobrem as ruas todas! O cheiro convida a respirar fundo… e eu respiro fundo. Será verdade?  Estou numa passeata na India no meio de um grupo de Sahdus, fotografo sem restrições (para além daquelas de fotografar e andar ao mesmo tempo sem pisar ninguém 🙂  e jogam flores cheirosas na minha cabeça por todo o caminho?
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Não contenho a minha alegria. Olho por todos os lados e acho o momento especial. Os Sahdus dizem alto a palavra “Jai Jee Ram“. Imagino que seja algum desejo de paz qualquer e digo também em voz alta. Imagino que o meu bem-estar está estampado na minha cara pois eles olham para mim com uma expressão doce. Adoro quando jogam flores e abro os braços para recebe-las. Apanho algumas e cheiro. Quero que esta caminhada não acabe nunca!!!
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Andamos por toda a vila e aprecio cada instante. Não sei para onde vamos. Sigo o fluxo. Estou distraída, quando me vejo a subir um palco. Estou em posição privilegiada junto aos Sadhus quando inicia-se um evento. Uma pessoa importante é escoltada por policiais até o palco e fica ao meu lado. Não sei quem é. Muitos tentam tirar uma selfie. Por vias das dúvidas, tiro uma também. 🙂
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Falam em Hindu coisas que não tenho a mínima ideia do tema e vejo muitos presentes serem dados aos Sahdus que suponho ser os mais importantes. Alguém põe uma echarpe (bonita, de algodão) na minha mão e diz: gift!  Hã? Presente pra mim?  Pego no tecido com as duas mãos e agradeço emocionada. É só um pano, mas adorei receber este pedaço de pano. O homem sai, cruzo o olhar com um Sahdu ao longe. Rodo a cabeça como os indianos, para a esquerda e para a direita como se tentasse encostar a orelha nos ombros. Ele entende que estou muito agradecida e retribui o sinal com a cabeça.
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A pessoa importante fala por uns minutos e o evento acaba. O Sahdus são colocados num autocarro de mil-novecentos-e-duas-bolinhas. Branco, até onde pode haver esta cor na India. Vejo várias cabeças cor de laranja pela janela. Vão-se embora.

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Agora compreendo o significado de um Spiritual Walk pois já fiz a minha… que manhã magnífica!!

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*pessoas que renunciam os seus bens materiais e dedicam a sua vida à religião

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